Nuno Alvares
Nossa Senhora das Dores

Plinio Corrêa de Oliveira

Santo do Dia, 15 de setembro de 1965 (*)



Hoje é festa das Sete Dores de Nossa Senhora, colocada, com muita felicidade, logo depois da festa da Exaltação da Santa Cruz. “Festa estendida a toda Igreja por Pio VIII, em memória da proteção da Santíssima Virgem na libertação de Pio VII”.

Sobre isto comenta D. Guéranger:

“No decurso da oitava da Natividade, o pensamento do sofrimento não se apresentava ao espírito do fiel, mas se nós nos tivéssemos posto a questão “o que será essa criança”, nós teríamos visto exatamente que se todas as nações devessem um dia proclamá-la bem-aventurada, Maria deveria sofrer antes com seu Filho, para a salvação do mundo. Ela mesma, pela voz da liturgia, nos convida a considerar sua dor: “Ó vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se há uma dor igual à minha dor. Deus me pôs e estabeleceu na desolação. Minha dor é obra de Deus”.

“É Ele que, predestinando-A a ser Mãe de seu Filho, uniu indissoluvelmente sua pessoa à vida, aos mistérios, aos sofrimentos de Jesus para ser, na obra da Redenção, sua fiel cooperadora. É preciso que o sofrimento seja um bem muito considerável, para que Deus, que ama tanto Seu Filho, tenha dado sofrimento a Ele. E como depois de Seu Filho, Ele ama a Santa Virgem mais do que qualquer criatura, Ele quis dar a Ela também o sofrimento como o mais rico dos presentes.

“Por Maria, o sofrimento não dava só no Calvário; o sofrimento lhe veio com Jesus, “essa criança incômoda” como disse Bossuet, porque Jesus, entrando em qualquer lugar, entra com Sua cruz; e a traz com seus espinhos, e a distribui a todos que a amam”.

“A solenidade desse dia, que nos mostra sobretudo Maria no Calvário, nos lembra, nessa dor suprema de todas as dores, conhecidas ou não, que encheram a vida de Nossa Senhora. Se a Igreja se deteve no número de sete, é porque esse número exprime sempre a idéia de totalidade ou universalidade.

“Para compreender, com efeito, a extensão e intensidade dos sofrimentos de Nossa Senhora, é preciso conhecer o que foi seu amor por Jesus. E seu amor aumentou seu sofrimento. A natureza e a graça concorrem juntas para produzir no coração de Maria impressões profundas. Nada é mais forte e mais premente do que o amor que a natureza dá para um filho e aquele que a graça dá para um Deus”.


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São tantos pensamentos excelentes, que se seria tentado a desenvolver excessivamente este Santo do Dia. Mas em todo caso, vamos nos concentrar sobre duas idéias que estão aqui:

1) Deus, tendo amado com amor infinito ao Seu Verbo Encarnado, Nosso Senhor Jesus Cristo, e tendo amado com um amor inferior a esse, mas superior a todos os outros, a Nossa Senhora, Lhes obteve tudo quanto há de bom.

E por isso Lhes concedeu aquela imensidade de cruzes que é representado pelo número sete. São sete dores, quer dizer, são todas as dores. E Nossa Senhora das Dores poderia ser chamada perfeitamente Nossa Senhora de todas as Dores, porque não houve dor que Ela não tivesse.

2) Por causa disso, se é verdade que todas as gerações A chamarão bem-aventurada, a um título menor, mas imensamente real, todas a gerações A poderiam ter chamado “infeliz”. Ora, se isso é assim, nós deveríamos compreender melhor, quando a dor entra na nossa vida, que é uma prova de amor de Deus.

E que enquanto a dor não penetrar em nossa existência, não temos todas as provas de amor de Deus. Eu acrescentaria – e mais adiante justificarei – não temos a principal prova do amor de Deus para conosco.

O que quer dizer isto? Há muitas pessoas que olho e observo sua fisionomia. E, no fundo desta, vejo isto: falta-lhe ainda sofrer, falta uma nota de maturidade, de estabilidade, de racionalidade, uma elevação que só tem aquele que sofreu, e que sofreu muito. Em quem leva uma vida sem sofrimento, essa nota não transparece na fisionomia e, o que é muito pior, não transparece na alma.

Devemos compreender isso quando começam a surgir os contratempos, dificuldades em nosso apostolado, mal entendidos com os amigos dentro do Grupo(**), mal entendidos com nossos superiores, saúde que anda mal, negócios que andam mal, encrencas dentro de casa, não deveríamos tomar isso como um bicho de sete cabeças, como o espírito hollywoodiano gostaria que se tomasse, ou seja como uma coisa que não devia acontecer. Como foi que aconteceu uma coisa dessas?…

Não senhor!

As Sete Dores da Santíssima Virgem (DÜRER, Albrecht – c. 1496. Alte Pinakothek, Munchen and Gemäldegalerie, Dresden)

Quem não sofre é que deve se perguntar: como está me acontecendo isto, pois não estou sofrendo nada? Porque o normal é sofrer. Aquele a quem Deus ama, a quem Nossa Senhora ama, este sofre, porque Deus não vai recusar a este filho, o que concedeu em abundância aos dois entes que Ele mais amou, que são Nosso Senhor Jesus Cristo e Sua Mãe Santíssima.

Os senhores compreendem, então, que o normal é sofrer. E tenham isto por normal em sua vida: tentações, provações de corpo ou de alma, toda espécie de coisas, a gente deve pedir para que passem, mas na medida em que não passarem, a gente deve bendizer a Deus, bendizer a Nossa Senhora.

São Luís Grignion de Montfort chega a dizer que quem não sofre deve fazer peregrinações e orações pedindo sofrimento, embora ele condicione este pedido à aprovação de um diretor espiritual, porque é um pedido muito grave.

Mas é porque quem não sofre, não vai indo tão bem quanto podia ir, e às vezes vai indo inteiramente mal.

Aí os senhores têm a frase estupenda de Bossuet, a respeito de Nosso Senhor Menino: “aquele Menino incômodo”. Como todos aqueles que querem seguir a Nossa Senhor são incômodos!…

Às vezes temos a sensação experimental disso. Começamos a dar um conselho, um exemplo, começamos a pedir um sacrifício, o semblante de nosso interlocutor vai denunciando que ele nos está vendo incômodo. Como seria mais fácil dizer uma piada alegre, fazer uma brincadeira, acabar tudo com uma tapinha nas costas e dispensar de uma obrigação!

Como mandar seria agradável, se fosse isto! Mas mandar é o contrário: é estar exigindo que nosso subordinado tome as coisas a sério, que as olhe pelo seu lado mais profundo, que veja as coisas pelo seu lado mais alto, mais sério, mais sublime, que veja de frente a sua própria alma, que se examine a si mesmo detidamente, que procure corrigir efetivamente e seriamente os seus defeitos. E como isto é incômodo!

Pois bem, o sermos incômodos é um dos maiores pesos, e também esse devemos carregar. Nas nossas famílias nos acham incômodos porque lhes lembramos o dever.

A resignação alegra essa incomodidade. A coragem de sermos incômodos em todas as circunstâncias; o votarmos a amizade de preferência aos nossos amigos incômodos, quando a incomodidade deles consiste em nos lembrar o dever, são as virtudes que, no dia das Sete Dores de Nossa Senhora, devemos Lhe pedir.

Ela que também teve um Filho que Lhe trouxe tantos divinos incômodos, e que nos convidando a meditar sobre a dor dEla, nos convida a meditar sobre a seriedade e a sublimidade da Sua e de nossa existência, e que a esse título é também para nós maternal e estupendamente incômoda.

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- A D V E R T Ê N C I A -
O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor. Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tãobelo e constante estado de espírito: “Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”. As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

(*) Há incerteza quanto ao ano: se 1965 ou 1966.
(**) Aqui o Prof. Plinio se refere aos membros da TFP, aos quais se dirigia. Tendo esta se originado, mais recentemente, do “Grupo do Catolicismo”, isto é, dos redatores e de todos aqueles que militavam em torno à Revista “Catolicismo”, generalizou-se, na linguagem interna da TFP, referir-se a si mesma como o “Grupo”.

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